Nunca divulguei a história do menino do
Juazeiro. Nunca escrevi seu nome em nenhum lugar online, inicialmente porque o
nome dele é insuportavelmente esquisito, posteriormente à pedido dele.
Eis que resolvi enunciar os fatos, para a posteridade:
Conheci menino do Juazeiro em um avião.
Voltava da Campus Party 4 (2011) e vestia minha camiseta do Wally com um
short preto e um all star vermelho. O all star vermelho chamou a atenção do
menino do Juazeiro, que estava a algum tempo sentado ao meu lado (possivelmente
desde Brasília) quando o lanche aéreo foi servido. Eu não havia reparado no
menino do Juazeiro, eu nunca reparo nas pessoas, porque simplesmente não gosto
de conhecer pessoas novas e das poucas vezes que o fiz, nada me foi acrescentado.
Quando o lanche foi servido, porém, o menino, inventivo que o é, se viu munido
de um guardanapo e uma caneta. Eu estava ouvindo música com fones de ouvido e
resolvendo problemas de lógica e de sudoku numa revistinha qualquer de palavras
cruzadas. Recebo um bilhete vindo da pessoa sentada a apenas alguns centímetros
de mim - repito, não havia reparado quem havia se sentado ao meu lado -
perguntando se a pessoa interessante do all star vermelho estava indo a Palmas
a passeio ou se morava lá e o que eu estava ouvindo. Achei curioso e idiota ele
se interessar pelo meu all star, como se em Palmas não houvesse ninguém que
tivesse all star, já que estávamos em 2011 e Palmas já era relativamente
parecida com as outras cidades. Respondi que estava ouvindo "Offspring,
Garbage e Cake", que morava aqui e que estava voltando da Campus Party,
aproveitei e perguntei o que ele ia fazer em Palmas, pois acabava de perceber que
ele era bonitinho. Ele me contou que morava há pouco tempo aqui e que vinha de Juazeiro
- CE (lugar do qual eu nunca havia ouvido falar) pois passou em um concurso.
Trazia a família para conhecer a cidade. Eu contei que era psicóloga. Não me
lembro do que mais conversamos, mas ele fez uma charada idiota (que nunca me
lembrei de perguntar o que significava) e trocamos telefones. Conversamos mais
um pouco (desta vez com as bocas, não com as mãos), desci para pegar minhas
inúmeras malas, encontrei meus pais e me perdi na inebriante narrativa de minha
aventura da #CPBr4 com eles. Não sei quantos dias depois resolvi perguntar por
mensagem ao menino do Juazeiro se a família dele havia gostado da cidade,
fiquei meio que compadecida dele não ter amigos aqui e bom, ele era bonitinho e
eu nunca havia provado o tempero cearense. Ele não respondeu a mensagem, e não
me lembro se liguei do meu celular ou de outro perguntando por ele, mas
rapidamente desisti e nunca mais entrei em contato. Ele também nunca me
procurou.
Meses depois comecei a namorar e sequer
lembrei o que era Juazeiro, avião ou Campus Party (podem conferir que não tem
nenhum post no blog,rs). Um ano e pouco depois meu namoro terminava de forma
ridícula e idiota - assim como começou, assim como sempre foi - e emagreci 12kg
por vomitar tudo o que comia por duas semanas e chorar sem parar. Quando
comecei a me recuperar, fiz minha tatuagem e comecei a me achar bonita de novo,
decidi que precisava me desvencilhar do ex e pegar o primeiro cara que me
aparecesse. Não havia ninguém interessante em lugar nenhum, e eu já tinha
parado de criar gado, então não sabia pra quem ligar. Pedi pra amigos me
indicarem homens solteiros e quase entrei no Badoo e no Bate Papo Uol, tamanha
era a minha vontade de esquecer o ex.
Resolvi brincar de 12345meia78 e comecei a
percorrer minha agenda telefônica. Lá estava ele: "Fulano Avião"
(continuarei sem divulgar o nome da criatura). Não quis ligar, enviei uma
mensagem no mínimo tosca dizendo que estava organizando os contatos da minha
agenda e queria saber da onde conhecia ele pois não me lembrava (claro que me
lembrava, estava escrito "avião", porra). Não houve resposta. Alguns
minutos depois meu telefone tocava: era o menino do Juazeiro perguntando se eu
realmente não me lembrava dele. Eu disse que não, e que queria saber de onde o
conhecia para saber se deveria apagar o telefone ou não. Ele disse que achava
que sabia de onde (ele sabia de onde, sempre soube, sempre teve meu telefone
gravado no celular, ficou fazendo esse charme idiota), que suspeitava que
havíamos nos conhecido a não sei quantos mil pés de altura. Eu me fiz de
desentendida e ele perguntou qual era a cor do meu tênis, ao que respondi
"vermelho", coincidentemente a mesma cor que estava meu rosto naquele
momento.
Pronto, estava armado o teatrinho que eu
precisava. Paixão gerada no avião, um símbolo que representava aquele momento
(o maldito all star) e todo o clima de ~sedussaum~ gerado naquela conversa.
Ficamos alguns dias conversando por sms até que ele me convidou pra almoçar. Eu
disse a ele que era desprovida de veículo próprio e que trabalhava perto da rodoviária,
perguntando se seria um problema ele me buscar. Cafajeste que é, respondeu que
mandaria uma limusine. No dia do almoço eu não sabia como me portar, suava frio
e meu estômago doía, depositando toda a minha fé de relacionamentos fracassados
naquela única oportunidade de ter habilidades de atrair alguém novamente. Não
chegou nenhuma limusine, mas sim um táxi de bancos de couro, um motorista
extremamente educado (sdds, Maurílio s2), o ar condicionado no talo e o aviso
de que ele me esperaria no local escolhido (que ele não quis informar). Era o
Cabana do Lago (restaurante típico maranhense da cidade, muito caro por sinal).
Ele estava feio. Cabeludo, descuidado e feio. Me senti bem porque também estava
mal cuidada. Pedi uma caipirinha pra aplacar o nervosismo e acabei ficando bêbada, só não sei se ele
percebeu. Falei do término do namoro, do trabalho, se várias coisas, e foi
engraçado quando ele tirou os óculos dele pra colocar os meus. Não senti nada,
nem sequer atração. Achei ele legal e apenas isso. Cheguei 2h atrasada no trabalho.
Meu ex veio falar comigo no Skype (ex tem o dom né?) e a partir daí só veio
desgraça. O menino do Juazeiro me mostrou onde morava (na mesma quadra do ex) e
várias vezes fui pra lá depois do trabalho conversar e ouvir ele tocar violão.
Nunca nos beijávamos ou nos tocávamos, ele virou um amigo que estava me
ajudando a voltar com o ex que havia reaparecido. Lembro-me que uma vez dormi
no "sofá" (que na verdade é uma cama de solteiro) na sala dele e
acordei com ele tocando violão e olhando pra mim. Eu senti como se nada pudesse
me machucar e quis que aquele momento durasse pra sempre.
No dia em que finalmente beijei o menino do
Juazeiro eu o havia carregado pra uma festa de uns amigos do tempo do colégio,
e demoramos a noite toda para chegar nisso, até porque o ex ficou bêbado e me
ligou em boa parte dela. Na manhã seguinte, ao chegar em casa, briguei com a
minha mãe e tomei 2mg de Rivotril (4xs mais do que estou acostumada) e o menino
me levou pro psicólogo (comecei a ir desde que terminei o namoro). Meu psicólogo
percebeu que eu não estava em condição alguma de ir pra casa por conta própria
e ligou pro meu ex (???) ir me buscar. Passei a manhã dormindo na casa do ex e
depois fomos com nossos amigos pra uma cachoeira. Fiquei com o ex de casalzinho
a tarde toda, e na hora de ir embora ele me disse que não ia me ver à noite
pois ia sair pra comer a ridícula da menina que fingiu ser minha amiga e
depois de me dizer que ia me ajudar a voltar com ele foi lá rebolar em cima do
pau dele com outra garota. Pedi pros meus amigos me deixarem algumas ruas
abaixo, na casa do menino do Juazeiro. Disse que não queria voltar com o ex. O
ex desmarcou com a vadia e me chamou pra sair. Eu neguei. Dormi com Juazeiro no
"sofá" abraçadinha, e nos tocamos brandamente no meio da noite, o que
depois ele chamou de "sonho", negando
toda e qualquer intenção de se aproveitar de mim.
Não me lembro se nesse dia ou no seguinte,
ou se antes, o menino do Juazeiro me contou que tinha namorada. Que sempre teve
essa namorada, desde antes de me conhecer, que ela morava em outra cidade e que
eles sempre namoraram à distância. Era um relacionamento aberto. De início não
me importei, não queria nada com ele. Mal sabia eu que este era um sinal
terrível de que ele não prestava nem pra troco de bala.
No dia seguinte, voltei pra casa dele, e aí
sim nos beijamos e quando a coisa começou a esquentar, apesar da timidez e de
todo o constrangimento de sentir outro homem me tocando que não fosse o ex, o
dito cujo me liga. Todo o clima ruiu e fui me encontrar com ele. Algumas horas
depois eu estava namorando de novo e menino do Juazeiro ficou alguns dias sem notícias
minhas. Me ligou, mandou e-mail perguntando como estava a psicóloga
rubroallstariana e se o namoro estava bem. Tentamos ser amigos, o que teria
funcionado perfeitamente bem se eu não estivesse querendo as carnes dele o
tempo todo. O namoro durou um mês de merda e fiquei solteira. Três dias depois
estava lá eu mandando mensagem pro menino do Juazeiro, que estava na cidade dos
pais da namorada a passeio. Chegou em Palmas e veio me ver. Ele tinha cortado o
cabelo e deixado a barba crescer. Chegou com seu fiel companheiro, o taxista, e
me levou pra jantar. Nunca achei alguém tão lindo em toda a minha vida. Tão
charmoso. Preguei um atestado de burrice na testa e me apaixonei. Dormi na casa
dele. No dia seguinte também. Fiz isso por vários dias. Nesse meio tempo ele
conheceu meu irmão, minha mãe, meus amigos, e todos à minha volta suspiravam
com os sorrisos que ele dava e com os discursos que ele fazia tão sabiamente.
Ele me contou que havia outras mulheres, pelo menos umas três, que apareciam
sedentas por sexo na porta dele e que eu dividia aquela cama não só com nossos
momentos íntimos, mas com o resquício dos momentos íntimos de outras. Achei
engraçado e perturbador, mas nada disse. Pouco tempo depois acabei confessando
que gostava dele. Ele me disse que não sabia o que fazer com isso, pois amava a
namorada e já estava envolvido demais com uma das outras amigas eróticas dele.
Tentamos deixar como estava, mas ele se fechou e eu cada vez mais desejava
dividir toda a minha vida com ele.
Um dia menino do Juazeiro viajou para ver a
namorada e nunca mais apareceu. Liguei pra contar que havia conseguido um
emprego e ele estava no Ceará. Não liguei mais. Esses dias resolvi ligar pra
ele pra oferecer um vale do supermercado que preciso vender, e a conversa foi
estranha, eu estava fria e ele estava sem jeito. Meia hora depois ele me mandou
uma mensagem pra "tomar um suco e bater um lero", mas eu estava
dormindo e só vi depois. Perguntei que dia, e ele disse que seria na hora em
que ele mandou a mensagem, pois estava na frente do meu prédio. Eu disse que
ele podia ter interfonado, ora bolas, e então ele não disse mais nada.
Hoje o contato dele no meu celular é
"Ninguém". Não consigo me lembrar mais do sorriso dele nem de seus
discursos intermináveis. Talvez seja melhor assim.