Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

A Analogia da Sopa

Um belo dia você faz uma sopa.

A: "Huuum, que cheiro delicioso, o que é isso?"
B: "É uma sopa de legumes! Você quer?"
A: "Ah, mas tá cheio dessas coisas verdes, Deus me livre, como isso não!"

Aí você faz outra sopa, desta vez sem as coisas verdes.

B: "Ei, ei, olha só o que temos aqui, uma sopa sem aquelas coisas verdes que você não gosta."
A: "Mas você tirou a vagem?!"
B: "Mas é porque vagem é verde, e você especificamente disse que não gosta de coisas verdes."
A: "Aaaah, mas é vagem, todo mundo gosta de vagem!"
B: "Então você não vai comer?"
A: "Posso até comer pra te agradar, mas vou vomitar depois."

Aí você faz uma terceira sopa, sem as coisas verdes, mas com vagem.

A: "Vejo que você fez uma sopa sem coisas verdes porém com vagem, eu gosto disso."
B: "Que ótimo! Vou te servir um prato!"
A: "Você colocou caldo de galinha?"
B: "Eu não sabia que era pra colocar, mas eu temperei bem, está realmente gostoso."
A: "Olha, isso não vai dar certo, uma sopa sem caldo de galinha não é bem uma sopa, sabe, não sei se consigo consumir algo assim."

Você refaz a sopa, desta vez com caldo de galinha.

B: "Estou maravilhada, desta vez não tem como dar errado!"
A: "O que foi?"
B: "Consegui fazer a sopa perfeita!"

Você serve um prato, a pessoa come metade dele.

A: "Pena que você não colocou macarrão, uma sopa de verdade tem que ter macarrão, sabe."
B: "Você quer que eu coloque macarrão? Posso colocar agora, é rapidinho."
A: "Não, não, agora deixa né. Se a sopa foi feita assim já é melhor do que nada."

Sopa de legumes (menos os verdes a não ser a vagem), com caldo de galinha e macarrão.

B: "Fiz a sopa exatamente do jeito que você gosta, não tem erro!!! Pode comer!"
A: "Meu Deus, é verdade, está perfeita! Parabéns, essa é a melhor sopa que eu já vi!"
B: "Obrigada, fico muito feliz que você tenha reconhecido! Vou servir pra você e aí você pode comer um prato todo desta vez."
A: "Annnh, sabe o que é? Eu preciso ir embora, nada disso mais vai dar certo, não faz sentido."
B: "Mas eu fiz tudo de acordo, você mesmo disse que agora ela está perfeita!"
A: "É, mas eu não gosto de sopa."

Ansiedade

O anseio é uma das piores formas do nosso organismo reagir a alguma coisa, principalmente porque nos faz agir feito loucos.
Aí você chora no trabalho três vezes.
E você não sabe mais como reagir, fazendo uma burrada atrás outra, realizando seu trabalho de forma ridícula e trágica, e não há forma de compensar isto, as outras pessoas não vão entender que a ansiedade está te atrapalhando a raciocinar, a comer, a dormir, a viver.

A questão que fica é: você pede para ir pra casa para não fazer mais besteiras ou você permanece pois é véspera de Carnaval e eles vão entender tudo errado?

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

e se não houver reciprocidade?

me pergunto se você está comendo direito
se você conseguiu acordar na hora certa
se você está bem

se sua mãe está te perturbando
se você precisa de ajuda
se você precisa de mim

sinto saudades.



[e o máximo que posso fazer é externalizar por aqui, paliativamente...]

Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012

My Life Would Suck Without You

Você me disse que eu precisava de um emprego de verdade, eu fui e consegui um.
Você me disse que eu precisava parar de reclamar, eu parei.
Você me disse que eu precisava quitar minhas dívidas, eu quitei.
Você me ensinou a pensar duas onze mil e quatrocentas vezes antes de agir.
Você me mostrou que eu tenho valor.
E que eu sou inteligente.
E que eu preciso correr atrás das coisas ao invés de esperar que elas se resolvam sozinhas.
Minha vida vai ser uma merda sem você.

"Being with you is so dysfunctional
I really shouldn't miss you
But I can't let you go"

Terça-feira, Fevereiro 07, 2012

~preposta~



Bem mais que o tempo
Que nós perdemos
Com os vai-e-vem
De uma procuração...

Ainda tem
O tempo da audiência
Só prá ouvir
O que o juiz achou

Nesse processo eu não
Quero ser a
Preposta...

Desfaz o tempo
Eu não agüento
Esse processo
Que ninguém testemunhou...

Você está vendo
O que está acontecendo
Nessa ata 
Sei que ainda estão...

Os gestos seus
E os meus que peço
Um acordo seu
Pra ver se eles
Aceitam...

Em paz eu digo que eu sou
uma pessoa ra-diante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro ser a reclamante

Bem mais que o tempo
Que nós perdemos
Também se vai
Aquilo que nos motivou...

Ainda lembro
Que eu estava lendo
A petição 
Que tudo começou...

Com os versos seus
Tão meus que peço
Um acordo seu
E rezo pra
Que aceitem...

Em paz eu digo que eu sou
uma pessoa ra-diante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro ser a reclamante...(2x)

Sábado, Janeiro 14, 2012

Detector de Camilas

Nasceu Camila. Desde muito pequena descobriu que tinha um dom: saber exatamente quantas Camilas tinham em qualquer lugar que estivesse. Talvez a ânsia veio pelo dom, ou o dom veio pela ânsia (nunca descobriu) mas sentia necessidade tremenda de sentir-se única, algo que jamais acontecia, pois haviam Camilas em todo lugar que nossa pequena Camila ia.
Na escola não era a melhor nem a pior aluna, limitava-se a responder o que lhe perguntavam, principalmente se a professora dissesse algo como "Agora vamos contar quantos amiguinhos têm o nome com as mesmas letras que as do nosso nome" ao que ela prontamente respondia: "Nesta sala há 05 pessoas cujo nome se iniciam com a letra 'C', 02 são Camilas, um número de acordo com a média desta escola, onde estão matriculadas 30 Camilas, 07 Marias Camilas e 01 Camila Cláudia, que eu não consigo imaginar porque diabos sua mãe teve coragem de dar-lhe este nome".
Não melhorou muito quando entrou para a faculdade. Fez estatística, mas a única coisa que conseguia decifrar em números eram quantas Camilas existiam no mundo e isso não lhe rendeu muito sucesso profissional - ninguém estava interessado em saber disto.
Pro mundo ela nunca foi importante. Apaixonou-se - se é que era possível apaixonar-se, vivendo neste mundo doentio onde nunca paravam de nomear Camilas - por um Renato. Não sabia contar Renatos, por isso não foi um grande problema. Tiveram filhos - nenhuma Camila - e viveram medianamente, no subúrbio de uma cidade não muito grande de Minas Gerais.
Ao final de sua vida, deitada em sua cama (que veio a ser o seu leito de morte segundos mais tarde) conversava com uma de suas netinhas sobre trivialidades quando de repente sentiu: era agora, era aquela hora em que ela seria considerada finalmente pelo o que era! Revirando os olhos não se sabe de alegria ou de desfunção cerebral, escutou sua neta perguntando "Vovó, o que está acontecendo?! A senhora está bem?" e balbuciou sorrindo que não, não estava bem, estava morrendo. Eis que a menina, de espanto, grita: "Então porquê a senhora está sorrindo com tanto gosto"?

Camila não hesitou em responder da forma mais serena que pôde, ainda sorrindo o sorriso mais bonito que uma pessoa poderia esboçar:

"Estou indo para o céu, minha filha, e não há Camilas lá".

Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

Hellhound Poodle

Antes das 07h e estou eu indo para o ponto de ônibus ao som de "Loverman" do Metallica, com a voz do digníssimo James Hetfield sussurrando gostosinho ao meu ouvido "tem um demônio espreitando do lado de fora da sua porta".
Eis que surge o cão do demônio: um poodle preto de porte médio, quase despelado, andando ao meu lado. Continuo seguindo meu caminho mas o cachorro não perde o rumo: anda ao meu lado até o momento em que paro para aumentar o volume da música (como se isso fosse fazer o animal desaparecer) e ele então me encara e anda em minha direção, ao que penso:
"é isto, é aqui que tudo acaba, terei em minha lápide os escritos 'morta por um poodle preto', eu sabia que este dia chegaria, mas imaginei que mandariam um cachorro maior, mais másculo..."
Ele não ataca. Eu continuo andando. Chego no ponto, ele olha para mim novamente. Tento lançar-lhe um olhar de "não sei o paradeiro dos irmãos Winchester" ou "não tenho nada contra os habitantes do seu planeta" e pelo visto ele entende, desistindo de alimentar-se do meu corpo (rico em proteínas e carboidratos, ótimo para qualquer animal sedento de carne e sangue) e indo em direção ao outro lado da rua.
Desta vez foi por pouco, mas tomem cuidado pessoal, nunca sabemos qual a forma que um hellhound poderá tomar, desta vez foi um poodle, amanhã poderá ser um pinscher, um cocker spaniel...

Tem um poodle espreitando do lado de fora da sua casa.

Domingo, Outubro 16, 2011

Prefiro que todos que eu amo morram...

...do que me abandonem.

Você é órfão. Qual situação te faz mais confortável: o fato de que sua mãe desistiu de você porque não se acreditou capaz de te sustentar e te largou em uma roda de igreja qualquer ou o fato de que a pobrezinha, livre de culpa, morreu no parto?
É muito fácil - incoerentemente - para nós aceitarmos a morte.
Um ente querido (ou nem tão querido assim) está desculpado quando morre. Por mais que todas as intenções de uma pessoa sejam vis e cruéis, todas são perdoáveis quando esta morre. Qualquer outra coisa que ela fizer em vida ou no processo da morte é excluído e morto juntamente com ela, como se nada houvesse acontecido. Nos esquecemos de que todos somos capazes de coisas terríveis e inimagináveis, e logo santificamos o morto como se lhe fosse merecido. O que aconteceria então, se a mãe, prestes a deixar o filho na roda da igreja, sofresse um ataque cardíaco e morresse?! Ninguém saberia ao certo, durante a perícia, se ela tinha a intenção de "desovar" a criança, ou se apenas estivera nas redondezas durante o ocorrido. Tudo é relativo. Achamos que essas coisas de novela jamais acontecem até acontecerem conosco. Uma mãe que abandona, um pai que mata, uma gravidez forjada, um golpe do baú, gêmeos separados ao nascer. Não importa o motivo, se alguém morre, logo se santifica a pessoa, e logo nos esquecemos de que nenhum de nós é santo, por motivo algum, muito menos por alguma morte imbecil como cair de uma escada ou tomar chá demais.
Mas o que fica sempre é o sentimento. Você se sentiria bem se alguém que você ama muito - como por exemplo, sua mãe - confessasse a você que nunca te desejou e que você foi um erro; ou você simplesmente preferiria que esta pessoa morresse antes de você saber toda a verdade?
 
↑Top